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11 de set. de 2009

A vida que ninguém vê

Navegando pelo blog para acompanhar as postagens dos colegas, vi a capa do livro "A vida que ninguém vê", de Eliane Brum. Foi no ano passado que li este livro e, na Semana da Comunicação, tive a oportunidade de acompanhar a palestra com a autora. Eu, que nunca fui de querer imitar ninguém, pensei: "Queria escrever como ela". Mais do que isso, ter essa percepção, essa sensibilidade, esse domínio das palavras.

Claro que tudo isso exige treino: do olhar, do faro jornalístico, da língua portuguesa. Espero que a Brás oportunize o encontro de histórias como as que Eliane costuma contar. Cabe a cada um de nós, repórteres/alunos, investir o nosso melhor, nosso estilo, nossa alma para cada uma dessas histórias.

Que venham as pautas!!!


Na foto, registro da ida à Vila Brás, enquanto a Bruna conversava com as crianças sobre suas perspectivas de futuro.

Até mais tarde...

22 de ago. de 2009

O olhar insubordinado

Moçada, se me permitem, separei, por relevante, - mas também como forma de dar minhas boas-vindas a todos -, um trecho do livro A vida que ninguém vê (Arquipélago, 2006), assinado por Eliane Brum a título de posfácio.

O excerto:

"Sempre gostei das histórias pequenas. Das que se repetem, das que pertencem à gente comum. Das desimportantes. O oposto, portando, do jornalismo clássico. Usando o clichê da reportagem, eu sempre me interessei mais pelo cachorro que morde o homem do que pelo homem que morde o cachorro - embora ache que essa seria uma história e tanto. O que esse olhar revela é que o ordinário da vida é extraordinário. E o que a rotina faz com a gente é encobrir a verdade, fazendo com que o milagre da vida é que se torne banal." (p. 187)

Observem que o texto nos fala de uma realidade que usualmente negligenciamos porque tendemos a perder, ao longo da vida, a capacidade de observar o que há de diferente nas coisas comuns.

Também sugere que, para observarmos as coisas ditas comuns, as "desimportâncias" do mundo, basta que mantenhamos nossos olhos abertos.

Por quê?

Entre outros, porque também é nelas, nas coisas comuns, que se revela a singularidade do mundo, tão cara ao jornalismo; e negligenciá-la equivale a deixar de lado, quem sabe, vidas que existem, mas que, no entanto, (quase) ninguém vê.

Tenho certeza que todos aprenderemos muito nos dias que estão por vir.

Um bom semestre a todos.

3 de mai. de 2009

Irmãs da Brás

Caminhando pelas ruas da Brás, fui atraída até a casa onde conheci Élica, Elizete e Nicole. A mãe das meninas, Catiane de Oliveira, 24, sustenta a família como auxiliar de cozinha. Hélio, seu marido, é servente de pedreiro, mas está desempregado há mais de seis meses.

Encantada com a alegria de seus olhares, não pude deixar de conversar com as meninas sobre os sonhos que cada uma alimenta em relação ao futuro. Élica tem oito anos e quer ser médica. Gosta de estudar e diz com toda firmeza: "Quero curar as pessoas". Elizete, um ano mais nova, ainda não escolheu uma profissão. Mas gosta de jogar no computador, então já sabe que, seja o que for, quer trabalhar usando esta ferramenta. A caçula, Nicole, de cinco anos, quer ser professora. Como ela mesma diz: "Que nem as tias da creche". Uma inspiração e tanto!

Há quem se pergunte pelo futuro das crianças da Brás. Depois de fotografar e conhecer essas meninas, eu aposto na realização de seus sonhos. Que elas não desistam deles!



2 de abr. de 2009

O olhar insubordinado

Pessoal, quem ainda não o fez, sugiro a leitura do livro "A vida que ninguém vê" (Arquipélado Editorial, 2006), de Eliane Brum, ex-Zero Hora, atual Época. Textos a respeito de gente absolutamente comum, como as que encontramos na Brás por ocasião de nossas saídas a campo, cujas vidas usualmente não seriam notícia de jornal, salvo em ocasião de tragédias ou violência. Mas que se transformam em matéria jornalística de qualidade quando o olhar do repórter se despe de preconceitos e resolve olhá-las com a devida atenção e respeito, o que exige domínio técnico/estilístico para muito além do lead, além da compreensão do local onde se está escrevendo.
Reproduzo dois trechos, por relevantes, do texto escrito pela autora ao final do livro, intitulado "Sobre a melhor profissão do mundo":

"Sempre gostei das histórias pequenas. Das que se repetem, das que pertencem à gente comum. Das desimportantes. O oposto, portanto, do jornalismo clássico. Usando o clichê da reportagem, eu sempre me interessei mais pelo cachorro que morde o homem do que pelo homem que morde o cachorro - embora ache que esta seria uma história e tanto. O que este olhar desvela é que o ordinário da vida é estraordinário. E o que a rotina faz com a gente é encobrir esta verdade, fazendo com que o milagre do que cada vida é se torne banal." (pág. 191)

"Olhar dá medo porque é risco. Se estivermos realmente decididos a enxergar não sabemos o que vamos ver. Quando saio da redação, tenho uma idéia de para onde devo olhar e o que pretendo buscar, mas é uma idéia aberta, suficiente apenas para partir. Tenho pena dos repórteres das teses prontas, que saem não com blocos, mas com planilhas para preencher aspas predeterminadas. Donos apenas da ilusão de que a vida pode ser domesticada, classificada e encaixotada em parágrafos seguros. Tudo o que somos de melhor é resultado do espanto. Como prescindir da possibilidade de se espantar? O melhor de ir para a rua espiar o mundo é que não sabemos o que vamos encontrar. Essa é a graça maior de ser repórter. (Essa é a graça de ser gente.) (Pág. 193)

O prefácio de "A vida que ninguém vê" é de Marcelo Rech. Ricardo Kotscho assina o posfácio.

Abraço a todos.